O Conselho Nacional de Transição (CNT) da República da Guiné-Bissau emitiu esta segunda-feira, em Bissau, um comunicado de imprensa com duras críticas ao Governo de Portugal, acusando-o de ingerência nos assuntos internos do país e de adoptar uma postura hostil face às actuais autoridades guineenses.
O comunicado foi lido num vídeo pelo porta-voz do CNT, Fernando Vaz, que transmitiu uma “nota de repúdio e advertência final” dirigida ao executivo português.
Na declaração, o CNT dirige-se directamente ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Rangel, sublinhando que qualquer abordagem relativa à Guiné-Bissau deve ser feita junto das “autoridades legítimas” do país. O órgão afirma que terminou o período em que Portugal recorria a terceiros países como intermediários diplomáticos, acrescentando que Angola e Brasil possuem autonomia suficiente para conduzirem os seus próprios assuntos.
O Conselho denuncia ainda uma alegada interferência contínua por parte de Lisboa, classificando-a como inaceitável e advertindo que esta deverá ser a última vez que tal situação será tolerada. Segundo o CNT, Portugal não tem legitimidade para influenciar decisões internas da Guiné-Bissau, acusando o actual Governo português de ter rompido com o histórico de cooperação mantido com executivos anteriores.
No plano internacional, o comunicado critica a postura diplomática portuguesa, contrastando-a com a de outros países europeus. O CNT aponta o exemplo da França, referindo uma actuação considerada pragmática ao reconhecer lideranças de transição noutros contextos africanos, em nome da estabilidade e dos interesses nacionais, em contraste com o que descreve como uma atitude de confronto por parte de Lisboa.
Relativamente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o CNT declara que a Guiné-Bissau não reconhecerá a presidência timorense da organização, rejeitando qualquer forma de intervenção indirecta de Portugal através de mecanismos diplomáticos que considera pouco transparentes.
O comunicado aborda ainda a cooperação bilateral, rejeitando a ideia de que esta represente um gesto de benevolência por parte de Portugal. O Conselho sublinha a interdependência entre os dois países, destacando o contributo da comunidade guineense residente em território português para a economia, e defende uma cooperação baseada na igualdade e no respeito mútuo.
Na parte final, o CNT afirma estar a gerir a actual situação política interna, incluindo um contexto descrito como golpe de Estado, com o objectivo de salvaguardar a estabilidade nacional, reiterando que não aceitará qualquer forma de julgamento ou intervenção externa por parte de Portugal.
O comunicado foi divulgado a partir de Bissau, com data de 23 de Março de 2026.



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