Expulsão de guineenses na Mauritânia gera revolta e ameaças de retaliação

Bissau, 13 de março de 2025 – A Associação dos Retornados de África e a Coordenação da Diáspora Guineense realizaram ontem, quarta-feira, uma conferência de imprensa em Bissau para denunciar a expulsão arbitrária de cidadãos guineenses na Mauritânia e exigir uma resposta firme do governo da Guiné-Bissau.

O presidente da associação e coordenador da diáspora abriu a conferência com um apelo urgente:“A nossa preocupação são os nossos irmãos na Mauritânia. Viemos aqui para falar com a imprensa e pedir socorro. Isto é um absurdo! Poderíamos ter reagido de outra forma, mas optámos por esperar até reunirmos todas as informações, e agora já as temos.”

Dirigindo-se diretamente à Embaixada da Mauritânia na Guiné-Bissau, o líder associativo questionou a diferença de tratamento entre os cidadãos dos dois países:“Aqui na Guiné-Bissau, recebemos todos os estrangeiros de braços abertos. Vivem à vontade e em paz. Mas por que razão os nossos cidadãos não podem viver em paz na Mauritânia? Durante a campanha do caju, muitos mauritanianos chegam aqui, vão até às tabancas mais remotas e ninguém os incomoda – nem o governo, nem a população. Então, por que um guineense não pode viver tranquilamente na Mauritânia?”

Denunciou ainda atos de repressão contra guineenses no país magrebino, incluindo a expulsão de crianças desacompanhadas:“Se um maliano cometer um crime, um guineense não pode pagar por isso! Retiraram até crianças das escolas. Tenho fotografias de duas crianças de 7 e 11 anos que foram levadas até à fronteira sem acompanhante! Isto é desumano e inaceitável.”

O coordenador da diáspora responsabilizou a representação diplomática guineense pela falta de ação e alertou para possíveis retaliações caso a situação não seja resolvida:“O governo mauritano que se prepare. Se não resolverem este problema, iremos reivindicar e ajustar contas. Eles também têm filhos aqui. Assim como nós amamos os nossos filhos, eles também devem proteger os deles.”

O orador denunciou ainda a discriminação enfrentada pelos guineenses na Mauritânia:“Lá, as nossas atividades são limitadas. Não podemos fazer negócios. Só nos permitem trabalhar como empregados domésticos e limpar casas de banho. Já aqui, os mauritanianos fazem de tudo e ainda são privilegiados. Se o governo não agir, nós próprios tomaremos medidas.”

Criticou a passividade do Estado guineense diante de injustiças contra os seus cidadãos no estrangeiro, recordando o assassinato de um cônsul guineense em Angola, que não teve resposta governamental:“O nosso Estado não reage quando os seus cidadãos são maltratados. Desde a geração de 7 de junho, a nossa economia tem sido sustentada pelos emigrantes através de remessas, mas continuamos sem proteção.”

Estudantes expulsos denunciam maus-tratos

O segundo interveniente, Mbemba Camara, estudante guineense na Mauritânia recentemente expulso, relatou os abusos sofridos pelas autoridades locais:“O nosso colega foi perseguido pela polícia quando foi comprar warga (chá). A polícia chegou à nossa residência, prendeu-nos e levou-nos para as celas, onde sofremos maus-tratos. Confiscaram os nossos passaportes, algemaram-nos e expulsaram-nos, deixando-nos abandonados na fronteira com o Senegal.”

Mbemba revelou que a repressão contra estudantes guineenses tem sido sistemática:“Muitos foram presos e outros conseguiram fugir. Os que ainda estão lá vivem com medo, não podem sequer sair para comprar gás ou alimentos. Alguns foram raptados diretamente dos dormitórios.”

Diante destas denúncias, a Associação dos Retornados de África e a Coordenação da Diáspora exigem uma ação imediata do governo da Guiné-Bissau para proteger os seus cidadãos e pressionar as autoridades mauritanas a cessar estas expulsões arbitrárias.

RTB

Redação

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