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Quando a Guinendade se perde por alguns segundos de fama

Por: Abene Lefna

Há momentos em que uma nação precisa de parar, olhar para si mesma e perguntar: é este o povo que queremos ser?

O que se vive atualmente nas redes sociais, sobretudo no TikTok, entre muitos guineenses, é um dos retratos mais preocupantes da degradação dos nossos valores. Não é apenas uma moda passageira. É um sinal de alerta. É um espelho que revela uma sociedade onde o respeito cede lugar ao insulto, a dignidade é sacrificada pela popularidade e a vergonha deixou de ser vergonha.

Vivemos numa época em que qualquer desentendimento se transforma num espetáculo público. O diálogo foi substituído pela exposição. O perdão deu lugar à vingança. A prudência foi vencida pela impulsividade. Hoje, qualquer telemóvel se tornou um tribunal, qualquer utilizador se tornou juiz e qualquer pessoa pode ser condenada perante milhares de espectadores, sem direito à defesa.

Mais doloroso ainda é assistir à banalização daquilo que, durante gerações, era considerado sagrado. Fotografias íntimas são divulgadas sem qualquer humanidade. A honra das pessoas é destruída em poucos segundos. Famílias inteiras carregam o peso de uma humilhação que nunca deveria ter saído da esfera privada.

Tudo isto por quê?

Por alguns milhares de visualizações. Por alguns “likes”. Por seguidores que amanhã desaparecerão, mas cujas consequências permanecerão para toda a vida.

Estamos a vender a nossa consciência ao preço da atenção momentânea. Estamos a trocar o caráter pela viralidade.

E, enquanto isso acontece, algo profundamente nosso vai morrendo em silêncio: a Guinendade.

A Guinendade nunca foi apenas nascer na Guiné-Bissau. Sempre significou respeito pelos mais velhos, consideração pelo próximo, solidariedade entre irmãos, capacidade de resolver conflitos com sabedoria e proteger a honra das famílias. Esses valores fizeram-nos resistir às dificuldades e deram identidade ao nosso povo.

Hoje, porém, parece que sentimos prazer em destruir uns aos outros diante do mundo. Celebramos o escândalo. Partilhamos a vergonha alheia como entretenimento. Aplaudimos quem humilha melhor, quem ofende mais alto e quem consegue transformar a vida privada de alguém num espetáculo público.

Se continuarmos por este caminho, não será apenas a imagem da Guiné-Bissau que ficará ferida. Seremos nós próprios a perder aquilo que nos distingue como povo.

As redes sociais não são o inimigo. O verdadeiro perigo está no uso irresponsável que fazemos delas. Uma ferramenta capaz de educar, unir, inspirar e criar oportunidades está a ser transformada numa arma de destruição moral.

Ainda há esperança. Mas essa mudança começa em cada um de nós. Antes de publicar, partilhar ou comentar, devemos perguntar: isto constrói ou destrói? Une ou divide? Honra a minha família e o meu país ou apenas alimenta mais um incêndio?

A história julgará a geração que teve nas mãos a tecnologia para elevar o seu povo, mas escolheu, muitas vezes, usá-la para o dividir.

Que não permitamos que a procura desesperada por fama digital enterre os valores que herdámos dos nossos pais e avós.

Porque uma nação não morre apenas quando perde as suas fronteiras.

Uma nação começa a morrer quando perde a vergonha, o respeito e a capacidade de reconhecer a humanidade do seu próprio povo.

Redação

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